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“A Patrícia fora do judo é aquilo que o judo permitir”

É simpática e tímida, mas transforma-se quando está a lutar. Patrícia Sampaio ganhou a distinção de atleta feminina do ano 2019, soma vários títulos internacionais e quer ir aos Jogos Olímpicos de Tóquio. Tem apenas 20 anos e é estudante na NOVA FCSH.

“O judo pode ser considerado como uma arte, ou uma filosofia do equilíbrio, bem como um meio para cultivar o sentido e o estado de equilíbrio”, escreveu Jigoro Kano, o japonês que fundou o judo em 1882. Esta arte marcial não é só um desporto, mas um modo de vida. E Patrícia Sampaio, aluna da licenciatura em Ciências da Comunicação da NOVA FCSH, encaixa-se nesta filosofia e soma e segue na modalidade.

Depois de competir em janeiro no Grand Prix 2020, em Tel Aviv (Israel), Patrícia voltou às aulas na NOVA FCSH. Quem a vê, não pensaria que teria regressado do Médio Oriente e que nas articulações trazia dores e alguns hematomas. Mas também uma medalha de bronze e na mira os Jogos Olímpicos de Tóquio.

De caracóis desenhados no cabelo castanho comprido, mala ao ombro com o caderno de apontamentos e o saco para o segundo treino do dia, Patrícia senta-se calmamente na cantina da NOVA FCSH, um pouco tímida: “Fico sempre nervosa, é como se cada entrevista fosse a primeira”, afirma com um sorriso.

Tem apenas 20 anos e já coleciona uma miríade de prémios e medalhas no judo. Nos tatamis – os tapetes que se utilizam para treinar e competir – Patrícia é bicampeã europeia de juniores em -78kg, campeã europeia universitária pela NOVA Desporto em 2019 e, entre outros prémios, foi eleita Atleta Feminina de 2019 pela Confederação do Desporto de Portugal, a 29 de janeiro de 2020.

Patricia Sampaio em Zabreg, Croácia, na World Championships Juniors 2017 (Foto © Klaus Mueller)

A família da atleta apoio-a incondicionalmente nesta escolha de vida. O pai, João Sampaio, antigo jogador de futebol que chegou a ser treinado por Eusébio nas camadas jovens do Benfica, Igor Sampaio, irmão e um dos treinadores de Patrícia e árbitro nacional, e Teresa Sampaio, a mãe que já perdeu a conta aos kimonos que já lavou, são uma família da cidade de Tomar unidos na saúde, na doença e na distância física.

Curiosamente, o judo não foi a primeira opção de Patrícia. Experimentou aos sete anos, impulsionada pelo irmão oito anos mais velho, e não gostou. “A Patrícia não chegou a fazer a segunda semana de treino, odiou e não quis mesmo continuar”, conta Igor.

Mais tarde, aos nove anos, voltou com uma amiga e nunca mais parou. Começou a treinar na Sociedade Filarmónica Gualdim Pais, ao lado do irmão. O fascínio do judo conquistou Igor e Patrícia cresceu a assistir aos treinos e competições do irmão.

“Nós quando víamos os vídeos e as fotos do irmão, ele estava sempre focado e muito concentrado e a Patrícia acabou por ser influenciada dessa maneira”, relembra Teresa. Mas a mãe não queria que Patrícia fosse para o judo: “Eu queria que ela fosse para a dança ou para a natação, mas depois quando experimentou novamente o judo aos nove anos algo a despertou”, revela.

Patrícia hoje reconhece a boa intenção da mãe, em tom de brincadeira: “A minha mãe é que tinha razão! (risos) porque quando era pequena eu já tinha dores nas costas de cair e ela dizia-me «tu estavas tão bem na natação, és tão alta e comprida ias dar uma nadadora espetacular!». Eu agora digo «ah! Eu devia ter ouvido a minha mãe»”, brinca a atleta.

Teresa assiste às competições sempre que pode. Já Igor não perde nenhuma e se a irmã competir no estrangeiro, ele “nem se deita”, confidencia a mãe. Os vizinhos de Igor são testemunhas: “Eu não consigo fazer pouco barulho e eles vão bater-me à porta e não é por estar a dar uma festa”, ri-se o irmão.

Igor e Patrícia Sampaio

O caminho da suavidade

A palavra judo, de origem japonesa, significa “caminho da suavidade” e é tudo menos isso. É precisa muita preparação física e psicológica, reclama decisões pessoais e ausências e dá em troca lesões, algumas para toda a vida. E se é assim, porque é que tantos atletas, apesar destas premissas, continuam a praticar este desporto? A explicação, essa sim, já é mais agradável: o judo é uma filosofia de vida, em que “vale a pena”, afirma Patrícia. E as decisões que o desporto a obrigou a tomar começaram cedo. E não se arrepende.

Desde pequena que a atleta mostrou uma capacidade intelectual fora do normal. Por exemplo, aprendeu a ler sozinha na pré-escola, no café dos pais, confidencia Teresa: “Nós íamos buscar o jornal todos os dias e ela ficava sentada numa das mesas e de repente começou a juntar as letras e a ler as frases!”. Tanto que a fluência a escrever e a ler é um dos pontos fortes da atleta, aponta a mãe.

Patrícia conta que até ao nono ano praticamente não precisava de estudar porque tinha boas notas. Mas a partir do décimo ano “a coisa começou a complicar” porque começou a competir no estrangeiro. E aos 17 anos recebeu a proposta de terminar o secundário em Lisboa. Atualmente, Patrícia está integrada no Projeto Olímpico e recebe uma bolsa do Comité Olímpico.

Sozinha na capital, foi viver para o Jamor e, após as aulas, treinava no Judo Clube de Lisboa, um clube amigo. A maior dificuldade foi habituar-se ao tempo de espera dos transportes e estar longe da família. Uma mudança que deixou preocupada a mãe, dado que tinha passado pelo mesmo há 30 anos quando entrou na NOVA FCSH. “Eu ficava aflita porque tinha medo que ela passasse o mesmo que eu passei, o sentir-me quase perdida”. Mas isso só fortaleceu e amadureceu mais a tomarense.

Quando era pequena, Patrícia queria ser muita coisa: “Quis ser educadora de infância, queria ser jornalista – tinha um microfone rosa e andava a entrevistar as pessoas em casa -, quis ser fisioterapeuta porque via os fisioterapeutas no judo e achava aquilo espetacular”, conta, mas no último ano do secundário, preferiu nutrição. “Era uma paixão que eu tinha, depois com as competições todas não consegui acompanhar na escola e fui muito má a biologia”, recorda, e foi então que surgiu a ideia de ir para Ciências da Comunicação na NOVA FCSH.

Teresa ficou extasiada com a decisão da filha, que a acompanhou na matrícula: “Eu gostei tanto de andar na NOVA. E quando fui com ela fazer a matrícula foi uma nostalgia”, relembra. A mãe da atleta entrou em Filosofia em 1989 e ainda hoje sonha com as salas de aula do curso que não conseguiu completar. O primeiro filho e as deslocações entre Tomar e Lisboa eram muito cansativas para Teresa, e com a mudança de João Sampaio para os Açores – à altura ainda jogador de futebol – Teresa decidiu abandonar a ideia.

Ao contrário do judo, o curso não é imediato. A tomarense está na NOVA FCSH há três anos e prevê ficar mais um ou dois. De cada ausência prolongada, a atleta regressa à faculdade com uma certa tristeza: “Ainda há bocado estava a mandar uma mensagem à minha mãe a dizer que já não estou habituada a estar aqui e que tenho muitas saudades dela”, sorri timidamente.

A vida de atleta de alta competição tem a sua idiossincrasia muito própria, com dois a três treinos por dia e uma mão cheia de competições, maioritariamente internacionais. Mesmo com estas nuances, Patrícia não desiste do curso para o qual entrou, em 2017, apesar de ser “complicado gerir”. Maria Siderot, judoca do Sporting Clube de Portugal e grande amiga de Patrícia, está no segundo ano de Desporto na Universidade Europeia e refere que a Patrícia é muito melhor na gestão desta dualidade.

A tomarense dá o exemplo do segundo semestre do terceiro ano: “Este semestre só me inscrevi em duas cadeiras porque não vale a pena sonhar demasiado alto em todos os cantos. Eu inscrevi-me em quatro cadeiras no semestre passado e só consegui fazer duas, não há condições para fazer tudo”. O irmão ajuda-a a gerir esta ambição: “Eu digo-lhe que ninguém duvida que é capaz, mas não podemos estar a trabalhar a 100 por cento em tudo e fizemos uma gestão nisso”.

A resiliência de Patrícia é uma qualidade que a mãe ressalva na filha. Elogia a enorme dedicação que ela tem para conseguir conciliar o judo com os estudos: “Eu sou testemunha do sofrimento dela porque ela está um mês fora e regressa à faculdade! Ela não sabe, mas se fosse comigo, eu já tinha desmotivado”, afirma Teresa, que a apoia diariamente “é um esforço muito grande que ela faz!”.

Para Patrícia há prioridades: “Se formos a ver bem, uma carreira no judo acaba muito mais cedo que uma carreira noutra área. Eu não sei se para o ano tenho uma lesão que me impeça de fazer judo, ou se me focasse mais nos estudos se calhar não conseguia ir aos Jogos Olímpicos”.

Maria Siderot partilha da mesma situação, mas por agora, o objetivo é unânime para as duas atletas: “Estamos juntas na caminhada para Tóquio. Queremos dar um pouco mais de nós e darmos o nosso melhor para conseguirmos conquistar este objetivo”, reforça Maria. Contudo, o aparecimento do COVID-19 adiou por mais um ano a ida à maior competição do mundo.

O Olho do Tigre

No clássico Rocky III, protagonizado por Sylvester Stallone, o campeão perde contra Clubber Lang e, para a desforra, é o seu “inimigo” Apolo Creed que o treina. Tornam-se, obviamente, companheiros, e Creed enfatiza que Rocky tem de recuperar o seu “olho de tigre” para derrotar Lang – frase que inspirou o tema Eye of the Tiger, dos Survivor.

Patrícia ganha o seu “olho de tigre” enquanto caminha para o tatami e transforma-se enquanto compete. “A Patrícia tem um coração enorme, é meiga e simpática” caracteriza-a Maria, mas quando começa a lutar “ela é um animal de palco”, elogia o irmão.

Marco Morais, treinador da seleção nacional de seniores e juniores, conta a curiosa transformação no tatami: “Acho muita piada porque realmente a Patrícia é carinhosa, simpática e quando ela vai lutar, ela muda. Ela está, de facto, a lutar por aquilo que trabalhou e o olhar dela demonstra muita determinação e carácter”.

Esta arte marcial leva Patrícia aos quatro cantos do mundo, traz-lhe dores no corpo e cápsulas abertas nos nós dos dedos, mas encoraja-a a ser melhor todos os dias, quer física quer psicologicamente. E tudo por “culpa” da família do judo, aqueles e aquelas que, à semelhança da tomarense, passam muito tempo longe de casa e que se apoiam mutuamente.

“O ambiente da nossa seleção é muito bom, e é difícil quando estamos fora no Japão ou na China durante um mês, mês e meio. Às vezes, basta uma palavra da Patrícia e o dia transforma-se num dia maravilhoso”, aponta Maria meio emocionada.

As duas atletas já se conhecem há meia dúzia de anos, uma amizade que foi crescendo entre treinos e competições: “Nem sempre podemos aproveitar com a família e torna-se mais fácil ter alguém que partilhe os mesmos objetivos que nós”.

Para ela, não há competição ou inveja entre as duas e a restante equipa da seleção. Quando se conheceram, Patrícia dizia que quando crescesse, queria ser como a amiga. Hoje, é ao contrário: “Ela diz-me isso, mas hoje sou eu que lhe digo que quando crescer, quero ser uma judoca como ela!”, conta Maria.

Marco Morais indica que o bom ambiente em equipa é o passo para estar tudo equilibrado individualmente: “Para evoluir é preciso ter acompanhamento. Se formos fortes em grupo, também o somos individualmente”, refere.

O treinador conheceu a tomarense em 2014, quando ainda era cadete, e não esquece o que lhe prendeu a atenção: “A Patrícia é determinada, muito trabalhadora e o carácter dela chamou-me a atenção. Podemos ter o talento, mas sem trabalho não se consegue. Ela tem o talento e a determinação, qualidades para ser uma atleta de competição”, conta.

Patrícia possuí duas características importantes, tanto no judo como na vida, frisa Igor: “Ela tem consistência e resiliência” explica “a Patrícia não tem um ‘não’ na cabeça e são nos dias médios que temos de continuar a treinar e isso está de mãos dadas com a resiliência, que é ser disciplinado e isso é fundamental”.

Aos 18 anos, Patrícia ainda era júnior e começou a treinar na seleção. Entrou com receio, mas depressa se esfumou quando foi bem acolhida por atletas como Telma Monteiro, Rochele Nunes ou Joana Ramos. Sente, desde essa época, que começou a crescer e amadurecer cada vez mais.

O antigo treinador indica que a tomarense está inserida numa grande estrutura familiar, com a equipa e a família a apoiá-la e isso faz com que ela cresça e consiga equilibrar a estrutura psicológica. Contudo, nem todos os atletas conseguem e precisam de recorrer ao acompanhamento psicológico.

VALORES DO JUDO

Reigi – Delicadeza e Cortesia

Yuki – Coragem

Makoto – Sinceridade

Meyo – Honra

Kenkyo – Modéstia

Sonkei – Respeito

Jisei – Autocontrolo

Yûjyô – Amizade

“Quem teme perder já está vencido”

Nas competições internacionais, Igor fica colado à televisão a ver a irmã e no final de cada prova, sempre que possível, aconselha-a nos próximos combates por telemóvel. Os dois irmãos são muito ligados, principalmente porque a diferença de idades já quase que não se nota. “A Patrícia amadureceu muito e o que ela antes via como uma imposição minha para alcançar determinado objetivo, agora vê que é um pedido para benefício próprio”, refere, “mas nas brincadeiras somos um pouco brutos”, ri-se.

No dia em que foi distinguida como Atleta Feminina do Ano, Patrícia regressava da competição em Tel Aviv. Vinha cansada e meio adoentada e pediu a Maria para ir representá-la: “Foi uma honra, eu sabia que ela ia conseguir! Este prémio retrata todos os esforços dela e espero que os mais novos se inspirem e vejam que é possível conseguir com muito trabalho”.

A atleta confessa que não aprecia a exposição mediática: “Não é não agradecer, fico muito grata por todo o apoio, mas eu gosto de ganhar porque me sinto bem a ganhar, não a pensar na exposição que vou ter a seguir”, explica. Marco tem a mesma postura: “Fico sempre muito contente pelas conquistas da Patrícia, claro, mas eu considero-me mais uma pessoa do tapete. Por isso, sou aquela pessoa que digo: «Boa, mas amanhã há treino novamente»”, afirma a sorrir.

O prémio acaba por ser uma “motivação extra”, explica Igor, e “serve também para ver que temos que ter os pés assentes na terra, porque já que aqui chegamos, temos que merecer estar neste lugar e o trabalho continua”.

De Tomar para o mundo, Patrícia começou a quebrar barreiras, principalmente geográficas. Igor aponta que ao ser uma atleta que vem de um clube mais pequeno, de uma cidade mais distante, era sempre preciso “um bocadinho mais” para mostrar o seu trabalho. Mas “a Patrícia é um bom exemplo de atleta que aparece e surpreende”, aponta Marco.

Fora do judo, a família, os amigos e o descanso são os três elementos preferidos da tomarense. O tempo, esse, tem de ser racionalizado, porque “a Patrícia fora do judo é aquilo que o judo permitir”, diz a atleta. Se o sonho comanda a vida, aqui é a arte marcial a assumir o leme do quotidiano.

Patrícia decidiu o que queria ser quando fosse grande. Treina pelo gosto, luta pelos objetivos e tem consciência que os estudos na NOVA FCSH são importantes quando a carreira no judo terminar. Até lá, quer conquistar o mundo e manter a cabeça no lugar, os pés no tatami e não ir ao chão. E claro, ser apurada e medalhar nos Jogos Olímpicos porque, como escreveu o pai do judo, “quem teme perder já está vencido”.

Ana Sofia Paiva

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